Lu & Lu
1 dezembro, 2009 | em: Amor, Contos, Frustrações, Não-Infame
- Quero te ver enquanto não é dia. – disse ela.
Lucas soltou um suspiro fundo. Era sempre assim. Luciana tinha suas crises e ligava pra ele.
- Deixe a porta aberta. – respondeu desligando o celular.
Olhou o relógio de pulso. Duas horas da manhã. Ele já havia acabado de tocar no bar à beira da praia e desligava exausto a aparelhagem de som. Trabalhara o dia inteiro na empresa de telemarketing e, ao anoitecer, foi até o bar cantar para turistas tão entretidos com o clima de sedução do verão em uma cidade praiana, que sequer prestavam atenção em suas músicas. Tudo o que Lucas queria era ir pra cama e descansar, mas aquilo seria impossível após a ligação Luciana. Mesmo depois que ele jurara a si mesmo nunca mais sequer citar o nome dela. Mesmo depois de, finalmente, aceitar que seus sentimentos não seriam recíprocos. Mesmo depois dele se forçar a esboçar algum plano em sua vida, após pensar que nada valia a pena sem ela e seus lamentos. Ele jamais conseguiria ficar em paz sabendo que Luciana precisava dele. E se odiou por amá-la demais.
Pensando nisso, Lucas pendurou o violão nas costas e subiu na moto em direção à casa dela.
Luciana morava num apartamento de apenas um quarto no prédio verde da zona universitária da cidade. A mãe, uma famosa juíza do interior, alugou pra ela assim que passou no vestibular para Direito e a forçou a cursar a faculdade na capital antes que ela colocasse na cabeça que poderia viver de música ou das horríveis bijuterias hippies que fazia.
Lucas estacionou na frente do prédio e foi até o interfone, mas não precisou tocá-lo. Luciana deveria ter ouvido o barulho da moto e destravou o portão automático para que entrasse. Ao tocar o ferro frio da maçaneta, ele hesitou. Não sabia exatamente como reagiria ao vê-la. Só tinha uma certeza: não queria passar por tudo aquilo de novo. Respirou fundo tentando conter as batidas fortes de seu coração e, com o violão nas costas, atravessou o pequeno hall de entrada em direção às escadas. Subiu devagar os degraus até o primeiro andar.
O pequeno corredor branco era iluminado pela luz que atravessava a janela de vidro à sua frente e por um fraco lustre no teto. Ele reparou que a lâmpada do alto parecia estranhamente mais forte do que de costume. Talvez dando-lhe as boas-vindas novamente. Talvez avisando-lhe para ir embora. Ele não soube dizer. Nas laterais, as quatro portas dos apartamentos. Três delas estavam fechadas e podia-se ouvir o silêncio vindo do lado de dentro. Mas o 103 estava entreaberto, convidando-o a entrar. E com os passos ainda hesitantes, ele o fez.
A sala do apartamento tinha a cara de Luciana. As paredes goiabas eram iluminadas por pisca-piscas coloridos pendurados ao redor dos quadros abstratos que ela mesma pintava. No chão havia puffs de cores quentes e grandes almofadas com estampas do Buda. Perto da janela, um pequeno rack que Luciana pintou à mão com temas indianos, abrigava um aparelho de som, a estante de CD’s, o notebook, vasos de flores, porta-incensos, velas, fotos e alguns objetos de decoração. No canto, uma samambaia. A única coisa que destoava da decoração era o confortável sofá de couro branco, exigência da mãe, que jamais se sentaria em um daqueles puffs empoeirados. Mesmo assim, Luciana o decorou com lenços indianos, numa atitude considerada rebelde pela juíza.
Lucas correu os olhos pelo apartamento. Viu os vasinhos de cerâmica de Luciana quebrados no chão, junto com alguns outros objetos de decoração. Seguiu os rastros e a viu sentada em uma almofada no canto da sala, quase escondida pela samambaia, fumando um cigarro. Seus olhos negros estavam inchados, molhados e vermelhos de choro, assim como a pele clara. Os cabelos castanhos e compridos estavam presos em uma trança mal-feita. A face bonita e angelical tinha agora um piercing de prata no nariz arrebitado. Ela usava seus típicos trajes: uma blusa branca de alcinha e uma saia cigana com flores vermelhas, que Lucas achava que caiam perfeitamente em seu corpo pequeno e magro.
- Oi. – disse ela dando uma baforada.
Lucas não respondeu. Ficou parado na porta, observando.
- O que foi? – disse ela enxugando o rosto.
- Nada está como antes.
- Como assim? – perguntou Luciana estranhando.
- Os lenços estão desbotados. Os tecidos das almofadas rasgados. As fotos envelhecidas. O aroma não é igual.
- Mesmo? – disse ela apagando o cigarro num cinzeiro preto lotado de bitucas – Pra mim está tudo do mesmo jeito.
- Não. – disse ele em um tom saudoso – Na sua casa nunca mais entrei. Mas decorei com exatidão todas as coisas como eu deixei. – Lucas entrou se desviando dos cacos – Vasos quebrados pelo chão. Lembranças do que eu não presenciei?
- Minha mãe esteve aqui. – disse ela suspirando – Veio me obrigar a voltar para a faculdade neste semestre – deu um sorriso triste – Você pode imaginar como foi.
Lucas não respondeu, apenas deu mais uma olhada para o caos em que estava a sala, enquanto tirava o violão das costas.
- Mas não quero falar sobre isso. – disse Luciana.
Ele assentiu. Despiu o casaco azul jogando-o no sofá e tirou o violão de dentro do abrigo. Chutou uma almofada até o lado dela e se sentou, posicionando o instrumento no colo.
- Tudo o que eu posso oferecer são minhas palavras pra você no plágio de uma bela melodia, Lu.
Ela sorriu e encostou a cabeça na parede ouvindo-o tocar e cantar baixinho algumas músicas que fizera. Luciana sabia: ele era um artista. O artista que ela jamais poderia ser. A voz macia de Lucas entrava como um consolo em seus ouvidos e, aos poucos, foi retomando a clareza de seus pensamentos. Acendeu outro cigarro e começou a falar.
Falou da briga, contou todos os detalhes. A mãe fora até lá exigir que ela voltasse para a faculdade e, quando Luciana negou, a juíza saiu do sério e começou a jogar no chão os vasinhos de cerâmica que a filha fizera. Disse que se não voltasse para a faculdade e tomasse jeito na vida, pararia de sustentá-la e a deixaria por conta própria. Luciana retrucou afirmando que se livrar da mãe era seu sonho desde criança e a juíza saíra do apartamento dizendo que nunca mais a procurasse. Luciana falou de sua infância, a ausência de carinho da mãe. Sua falta de sensibilidade por não perceber que ela tinha alma de artista. E que seria uma das boas se ela a aceitasse e incentivasse como a mãe de Lucas fazia. Contou novamente que começou a usar drogas para tentar atrair a atenção dela, mas tudo o que conseguiu foi uma boa surra e um exílio para um colégio interno na Europa. Falou da vida no tal colégio, do quanto sofreu nas mãos das freiras. Falou do retorno ao Brasil e da recepção fria da mãe. Da inveja que sentia de Lucas. Foi então que finalmente parou, percebendo que falara demais enquanto ele estava quieto demais.
- Você não vai dizer nada? – disse ela acendendo um outro cigarro.
Ele balançou a cabeça. Já ouvira aquelas histórias inúmeras vezes. Já passara madrugadas como aquela tentando consolá-la. Mas nada adiantava.
- Diz, Lu. Ao menos alguma coisa.
- Tudo o que eu quero te dizer eu já cansei de escrever.
Ela sorriu.
- Você é um poeta. – e tocou-lhe os cabelos lisos e negros que ele mantinha na altura dos ombros.
Lucas voltou a dedilhar o violão. Novamente a música triste e o “fumar” de Luciana eram os únicos sons ouvidos no apartamento. Quando o cigarro acabou, os olhos dela voltaram a se marejar.
- Eu vou embora. – disse ela apagando o cigarro – Não sei pra onde. Mas vou embora. – voltou a chorar – Eu desisto, Lu.
Ele sentiu a dor naquelas palavras. Luciana realmente falava sério. Deixou o violão de lado e olhou pra ela. Seus olhos estavam novamente vermelhos.
- Eu não consigo mais… Não agüento mais essa droga de vida!
Lucas sorriu docemente e enxugou suas lágrimas, enquanto ela permanecia imóvel, fitando-o. Ele se levantou e estendeu-lhe a mão.
- Vem.
Luciana cessou o choro. Pegou sua mão e se levantou quase tropeçando na comprida saia. Lucas a levou até o centro da sala e a trouxe para perto de si. Pôs as mãos de Luciana em seus ombros e, enlaçando sua cintura, começou a dançar com ela, devagar.
- Há quanto tempo eu não danço sem música? – disse ela esboçando um sorriso.
Lucas fez um sinal para que ela ficasse em silêncio e Luciana deitou o rosto em seu ombro. Ele afagou-lhe os cabelos cor de mel e disse com a voz doce:
- Mas diz porque tu vais embora. Mas diz porque tens tanto medo, se não acorda cedo, nem trabalha, estuda ou namora.
- Lu…
- Mas diz porque chegou a hora. Agora que eu venci meu medo e te peguei pelos dedos pra dançar enquanto o sol demora.
- Eu não sou como você. – disse ela chorando, sem encará-lo – Eu não sou! São muitas histórias e de muitas delas sinto medo.
Lucas a deixou chorar em seu ombro e a embalava devagar. Luciana o apertava com força. Ele era seu salvador, a única pessoa que conseguia deixá-la bem novamente. Quantas vezes já ligara para ele no meio da madrugada, às vezes bêbada, às vezes drogada, às vezes simplesmente triste, querendo alguém pra conversar? E Lucas aparecia a hora que fosse. Consolava-a com seu violão, com sua poesia, suas palavras sábias, seu beijo doce, seu corpo quente… Sempre, sempre a fazia sentir-se especial de novo. Exceto no dia seguinte, quando ela sentia culpa. Sabia que ele a amava. Sabia que tudo aquilo tinha uma importância muito maior pra ele e acabava magoando-o quando via a esperança no semblante de Lucas. Quantas vezes não se culpou pelos olhos tristes e as músicas melancólicas que ele escrevia? Quantas vezes já não jurara a si mesma que não iria mais ligar pra ele, que não queria mais magoá-lo? Mas era só haver um problema que ela esquecia essas promessas. E ali, naquela pequena sala, enquanto dançavam sobre os cacos dos vasos de cerâmica, ela esqueceu a culpa. Pensava somente no que Lucas representava pra ela, no que a fazia sentir. Olhou-o e seus olhos castanhos a fitaram. Luciana acariciou seus cabelos, sua pele muito branca e se aproximou para beijá-lo.
Lucas permaneceu imóvel e deixou que ela tocasse seus lábios nos dele, se entregando a um beijo. Luciana se afastou e começava a levantar a blusa branca, quando ele a parou.
- Não faça isso, Lu. – disse ele.
- Por quê?
- Tu sabes.
Ela abaixou os olhos e pegou suas mãos. Beijou seus dedos largos e o fez tocar seu rosto.
- Pare, Lu.
- Eu só quero um pouco de carinho. – disse ela com os olhos marejados novamente – Mais nada.
- Achas que isso me é algum consolo? Eu não quero lembrar o que eu fui pra você, uma simples distração pra você esquecer!
Luciana ficou parada, olhando pra ele.
- Você precisa superar isso. – disse ela quando uma lágrima caiu – Tem que seguir em frente e…
- Por que você insiste em dizer que ainda existe vida sem você? Lu, eu não quero lembrar que eu vou acordar sabendo que meus olhos não vão te encontrar. Eu não quero lembrar que tudo acabou pra mim!
- Eu nunca quis fazer você sofrer…
- Mentira. – disse ele agora com os olhos úmidos – Como podes dizer que nunca quis me magoar? Todas as noites tu me chamavas aqui, falando das tuas angústias. Eu ouvia, te consolava, ficava contigo e no dia seguinte tu simplesmente… Tu simplesmente dizias que não devias ter feito isso! E agora vens me fazer a mesma coisa. Sempre assim, Lu. Quando vais crescer? Quando vais olhar o mundo real? Se preocupar com as angústias das pessoas? Tu não sabes o que é sofrimento de verdade. Vamos falar de solidão, Lu? Vamos falar…
- Pára, Lucas! – disse ela gritando com as orelhas tampadas.
Os dois ficaram em silêncio, se encarando com os olhos cheios de lágrimas.
- Você deveria vir aqui para me consolar, Lu, e não me fazer sentir pior do que estava antes. Não vê que eu não quero lembrar o que eu fui pra você? Dói demais!
Ao ouvir as palavras egoístas de Luciana, Lucas sente toda a raiva de antes. Raiva de si mesmo por amá-la, por confortá-la, por querê-la bem. Mas desta vez, a fúria veio com força total. Lucas quis tirar tudo o que estava entalado em sua garganta e gritou a plenos pulmões:
- Dói em ti? Ah, Lu! Tu não sabes o que é dor! Quando você não esperar vai doer. E eu sei como vai doer! E vai passar como passou por mim e fazer com que se sinta assim, como eu sinto, como eu vejo, como eu vivo! Eu não canso de tentar eu sei que vai ouvir, eu sei que vai lembrar. Vai rezar pra esquecer! Vai pedir pra esquecer! Mas eu não vou deixar. – pegou o violão – Eu não vou deixar!
E saiu nervoso do apartamento.
Luciana ficou chocada, sem acreditar no que ouviu. O que ela fizera? Como pôde ser tão egoísta assim? Lucas não merecia o que ela fazia com ele. Definitivamente não merecia. Ela abriu a porta do apartamento e desceu as escadas chamando seu nome. Atravessou o hall do prédio e o viu montando na moto. Chamou-o mais uma vez.
- Vou te esquecer. – disse ele enxugando o rosto – Vou te esquecer.
Lucas ligou a moto e saiu dali. Luciana, aos prantos, sentou nos degraus de entrada do prédio, banhada pelas primeiras luzes da manhã. Sentia-se fraca, sem forças. Abraçava as pernas com as mãos e batia a cabeça nos joelhos, lamentando sua vida, todas as bobagens que fizera, todas as coisas que fez Lucas passar. Chorava um choro de desespero, angustiado. Por que ela era assim?
De repente, escutou uma freada brusca seguida de uma batida forte. Luciana olhou rapidamente para a avenida, assustada. Um carro pegara uma moto. O corpo do motoqueiro voava por cima do carro e caía estatelado no chão. Mas foi o violão caindo do outro lado da calçada que a fez despertar daquela cena quase irreal.
- Lucas. – balbuciou ela levantando-se e começou a andar na direção do acidente – Lucas!
O motorista saiu do carro com a testa sangrando e, assustado, foi tentar socorrê-lo, mas Luciana o afastou e ajoelhou-se ao lado dele.
- Lucas! – disse ela desesperada observando-o. Sua calça jeans estava suja de sangue e a camisa branca formava poças vermelhas cada vez maiores. Seu rosto também estava coberto de sangue, com cortes profundos. Ele não usava capacete.
- Ele se jogou na minha frente! – disse o motorista – Ele acelerou e se jogou…
- Chame uma ambulância! – gritou ela enquanto pegava Lucas no colo, dando leves tapinhas em seu rosto – Por favor, fale comigo. Lucas! Fale comigo!
Lucas abriu fracamente os olhos e balbuciou:
- Por que você insiste em dizer que existe vida?
E fechou os olhos.
Desesperada, Luciana agarrou o corpo sem vida de Lucas contra o seu.
Maureen Bond
Versos em negrito retirados da música “Milonga” de Lucas Silveira e Rodrigo Tavares, interpretados pela banda Fresno.
É, eu sei que não é infame. Mas escrevi este texto em um momento em que estava totalmente “embebida” pela música e achei que valeria a pena para ser minha re-estréia aqui. Abaixo, segue o vídeo do Youtube com a letra original e a música. Vale a pena.
Vídeo da banda Fresno tocando “Milonga” ao vivo no Estúdio Show Livre em 2008.

