Uma ficção Histórico-Científica: Henri de Toulousse parte 3 – Final.

7 fevereiro, 2010 | em: Contos

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Prezados, chegamos ao último episódio desse pequeno conto. Espero que interpretem bem.

Demorou cerca de um mês para traduzir todo o conteúdo da carta devido ao seu parco domínio daquela língua, mas não queria mandar ninguém traduzir, era arriscado demais. Após esse longo período debruçado sobre o manuscrito em uma folha chamex, chegou ao seguinte resultado:

Brasil, 02 de fevereiro do ano do nosso Senhor de 2010.

Caro irmão Lui de Toulousse,

Acredito que estejas a se perguntar o que foi que me aconteceu nesse período que estive afastado e que provavelmente pensas que já estou com nosso senhor Jesus se a mim tão grandiosa graça for de juízo. A batalha para defender nossa cidade foi terrível como bem sabes, de maneira que até mesmo eu, noviço no mosteiro de Toulousse tive que pegar em armas para defender nossa cidade dos maometanos sanguinolentos. Encontrava-me encurralado e bati em retirada até um lugar ermo fora dos portões da cidade que já estavam destruídos e parte da cidade já era saqueada com camponeses executados pelo chão, cena horrível. Corri tanto dos meus agressores, ora disparando flechas como minha parca habilidade permitia, ora me desviando de seus golpes até que os bárbaros desistiram e a noite se abateu, quando procurava o caminho de volta para me reunir ao comandante do meu regimento percebi que me encontrava perdido. Nesse momento vi uma luz no meio da escuridão que imaginei ser um sinal do nosso bom Senhor Jesus, sem pestanejar corri em direção a ele, mas para o meu espanto fui engolido pelo que me pareceu um poço luminoso de modo que cheguei a pensar que estava indo ao inferno encontrar-me com o demônio para meu juízo. Quando dei por mim estava dentro de um barril quadrado cheio de fumaça em volta, fiquei procurando o calor do fogo para me guarnecer, porém a fumaça era fria como o gelo. Cheguei a um lugar que julguei ser o inferno, pois tinha coisas que eu jamais havia sonhado ver e um homem vestido estranhamente, astutamente percebi que o capeta passava mal no exato momento da minha chegada e corri em disparada a procurar a escada para o purgatório aonde poderia ter com São Pedro e explicar a situação.

Irmão, as forças fogem ao meu sofrido corpo e sinto que não tenho muito tempo, por isso serei breve na narrativa. Quando saí do local que julgava ser o inferno percebi que na verdade era um grande edifício, tão grande como nossas maiores torres não chegam a um terço. As pessoas falavam uma língua estranha, porém uma espécie de dialeto da língua do povo da Ibéria ao sul de nossa cidade. Aos poucos meu ouvido foi se apurando e com o passar do tempo comecei a compreender o que aqueles homens diziam. As pessoas usam uma enorme quantidade de parafernálias que chamam de “eletrônicos” para os mais diversos fins, seus sapatos brilham com o mais puro couro aqui chamado de “sintético” e também de botas de pano com cano curto e uma espécie de madeira espessa na sola que chamam “tênis”, porém os hábeis artesãos que as produzem vivem tão precariamente que não vi sequer um usando os artefatos que confeccionam. Muito estranhei essa situação e pus-me a observar esse estranho novo mundo.

Irmão, muito fiquei surpreso quando descobri certo tempo depois que o mundo não acabou no ano 1000, e também não acabou no ano 2000, pois para meu espanto estava eu no ano do nosso Senhor de 2010! Por sorte fui ter com um pequeno e estudioso monge, que apesar de não usar batina, tinha grande sabedoria sobre os quatro cantos da terra, tinha pergaminhos perfurados em espiral onde tomava anotações do mosteiro que aqui chamam simplesmente de “Escola”, porém não ensinam religião, pois todos já têm conhecimento da vinda do nosso Senhor Jesus Cristo. Esse monge me ensinou a ler e a escrever no idioma local, o qual aprendi com relativa rapidez por haver certa semelhança gramatical com o nosso idioma e no mosteiro era esse o meu estudo predileto. Ele me ensinou sobre a história desse estranho país e me contou que essas são terras além-mar. Passei vários dias aturdido por esse fato, visto que em nossa gloriosa e mui santíssima igreja, já era de conhecimento comum que o mundo haveria de terminar nos arredores da terra ao leste acabando em um tenebroso abismo cósmico. Irmão, há muitas coisas a serem ditas, porém não tenho o tempo necessário, por isso vou resumir. Nesse país a que chamam de Brasil assim como a árvore que tinge tecidos, existem muitas coisas diferentes, porém há muitas outras iguais. Assim como em nossa terra aqui existem três estados: O clero, a nobreza e os comuns; Em algum momento da história os homens devem ter perdido a fé de modo que primeiro vem a nobreza e depois o clero. Os nobres daqui são deveras muito semelhantes aos nossos, exceto talvez por não procurarem honrar a palavra e os gestos nobres, afora isso, assim como aí, são espalhafatosos e gostam de passear em galantes carruagens movidas à engenharia alquímica pelo que pude entender, gastam muitos níqueis e moedas de ouro em coisas supérfluas porém não fazem doações igualmente generosa às ordens de caridade. O aparato administrativo do estado é encabeçado pelo rei que aqui chamam de Presidente, que é a mesma coisa, porém não é totalmente necessário ser nobre, mas pelo que vejo, a nobreza aqui é definida por outras cousas que não título, honra e bravura, porém alguma relação com posses de dinheiro, e mesmo que não seja uma lei escrita, a diferença entre um nobre e um não nobre é tão marcante que é praticamente impossível um comum chegar ao poder por mero talento, exatamente como no ano 999. Existem outros títulos de nobreza, que não o Presidente, há também, deputados, prefeitos, vereadores, gerentes, banqueiros, industriais, empresários, doutores, advogados, militares de alta patente, delegados. Exatamente como em nosso tempo, os camponeses em presença desses nobres baixam o olhar e sentem-se infinitamente gratos por respirar o mesmo ar que eles, os enchendo de honrarias cada vez que os avistam, para mais tarde poder contar que apertou a mão (cumprimento local) de um nobre. As vestes são claramente um fator de preocupação desse povo, de modo que grande parte de seu soldo se destina ao preenchimento de seus baús de vestes (que aqui chamam guarda-roupas), perguntei se eram tecidos vindos da China ou Índia e me responderam que não, eram produzidos aqui mesmo, em lugares chamados zonas industriais, perguntei então porque se devia tão alto valor já que era possível encontrar praticamente igual por valor mais acessível, responderam-me que se dava por conta do nome adornado nas vestes, que eram vários, Mitchel, Lui Viton, Zanqui, Nike, Strauss, imaginei que era mais uma maneira da nobreza se distinguir dos comuns (através dessa heráldica em nomenclaturas). Outro ponto em comum com nossa nobreza é que quando seus gastos excedem suas posses, os nobres castigam os camponeses que para eles trabalham aumentando seu trabalho, numa espécie de corvéia permanente, em troca os camponeses não têm terra ou proteção militar como os nossos, mas recebem algumas moedas que lhe possibilitam não morrer de fome de maneira que é muito mais rentável para o nobre manter o camponês assim do que oferecer-lhe terra. Nossas banalidades, e talhas, agora vejo, são mui justas, de maneira que em nossa mesa não falta comida. Os camponeses aqui moram em cidades, em aglomerados paupérrimos, pois se amontoam como ratos, e usam uma espécie de vinho e cerveja (que estranhamente bebem gelada e espumante) para esquecer a fome e os problemas, e quando se vêem sem outra opção senão roubar para sustentar às suas esposas e filhos e são pegos pelos guardas reais, ficam em estado de tal penúria que me custa a acreditar que esse território declara que 90% de seus habitantes são católicos. Ao inverso, quando um nobre é pego, ainda que em flagrante delito, até sua detenção se faz cheia de floreios e honrarias. Não consigo entender. Não lhes são cortadas as mãos e nem mesmo as orelhas para marcar diferença entre ladrão e homem bom. Aqueles que vivem no campo, não têm mais um senhor feudal para protegê-los como o nosso bom e honrado Senhor Raimundo I, que lhes proteja de bandidos e bárbaros, é sua produção que abastece as casas dos nobres e comuns das urbes do território, porém gozam de tal falta de privilégios e condições que passam por penúria maior que um ateu no reino dos céus e sua vida se resume a trabalhar sem descanso. Apesar dos camponeses viverem em grande penúria, os nobres promovem grandes festas para fazer as pessoas ficarem felizes e não se rebelarem, como o Carnaval (que persiste até hoje) e festas sodomitas chamadas micaretas onde todos os pudores são esquecidos em um frenesi e até mesmo alguns nobres se arriscam no meio do festejo. Tem também o futebol, um esporte que todos idolatram, alguns mais até do que nosso Senhor Jesus Cristo e se envolvem em rixas violentas por causa de preferências de equipes, falta-lhes amor no coração e consciência de sua própria miséria. Se soubessem o quanto sofrem não tratariam seus irmãos dessa maneira. Vivem de tal maneira alienados, quem acham que nós no ano 999 éramos infelizes e explorados, triste ironia.

Irmão, uma grande fraqueza se abateu sobre mim, meu espírito conclama o descanso eterno, ouvi falar de um lugar que têm mensageiros que vão para o mundo todo chamado “Correios”, minhas últimas energias gasto para fazer essa carta chegar a ti. Fala para as pessoas de como é triste e sombrio o futuro e que tenham mais amor ao peito antes de fazer a guerra com o vizinho. Pois o Reino de Deus é dos puros de coração.

Com grande estima,

Irmão Henri de Toulousse.

Com lágrimas a descer pela face, o jovem Newton fez a única coisa que poderia fazer. Assistiu até o último crepitar daquela chama. Nunca contou a ninguém sobre as partículas cronos. O tiro de 38 ecoou por todo o edifício.

FIM

*Alguns anacronismos foram eventualmente cometidos a bem da crítica social.

Motoboy Mascarado

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